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Artigos Saúde mental materna

Quando o depois não chega com alívio: saúde mental materna

Por Thamara Zambo Pereira Barbosa · · 5 min de leitura

Existe uma imagem muito bonita associada à maternidade: a gestação como espera, o nascimento como encontro e o bebê como início de uma nova história.
Mas há uma parte dessa história que nem sempre recebe a mesma atenção.

A mulher continua existindo depois que o bebê nasce.

Ela não deixa de sentir porque o parto terminou. Não necessariamente se sente feliz porque o bebê chegou. Não recupera imediatamente o próprio corpo, o sono, a identidade, a rotina ou a sensação de saber quem é.
E, às vezes, o depois chega acompanhado de silêncio, medo, exaustão, culpa, ansiedade ou uma tristeza que ela não sabe nomear.
É sobre esse depois que eu quero falar.

Saúde mental materna também faz parte do cuidado.

A saúde mental perinatal envolve o período da gestação e o primeiro ano após o nascimento, e não é um detalhe secundário do cuidado materno.

A Organização Mundial da Saúde estima que quase 1 em cada 5 mulheres vivencie uma condição de saúde mental durante a gestação ou no primeiro ano após o nascimento. Entre as mulheres que apresentam uma condição de saúde mental perinatal, cerca de 20% experimentam pensamentos suicidas ou atos de autolesão.
Esses números não existem para transformar a maternidade em um lugar de medo.
Existem para nos fazer olhar.
Para lembrar que o sofrimento psíquico também pode fazer parte da experiência materna e que, muitas vezes, ele permanece invisível.
Porque nem toda mulher que está sofrendo vai dizer:
“Estou mal.”
Às vezes ela diz:
“Só estou cansada.”
“Depois passa.”
“É normal.”
“Todo mundo está dando conta.”
“Eu deveria agradecer.”
“Meu bebê está bem, então eu não tenho motivo para reclamar.”
E talvez seja justamente nesse espaço que o cuidado precise chegar.
Nem tudo que é comum deve ser ignorado.
Mudanças emocionais podem acontecer durante a gestação e depois do parto. Mas isso não significa que todo sofrimento deva ser naturalizado ou suportado em silêncio.
Olhar para a saúde mental também faz parte de olhar para a mulher inteira.
Ela não é apenas um útero.
Não é apenas uma mãe.
Não é apenas alguém que precisa aprender a cuidar de um bebê.
Existe uma pessoa ali.
Com uma história.
Com relações.
Com medos.
Com expectativas.
Com marcas anteriores.
Com uma identidade que pode estar sendo reconstruída.
E o que acontece quando a urgência termina?
Talvez essa seja uma das perguntas que mais tenho feito ultimamente.
Nós sabemos cuidar de emergências.
Sabemos reconhecer o que exige atenção imediata.
Mas e depois?
Depois da alta.
Depois da consulta.
Depois que a família vai embora.
Depois que os primeiros dias passam.
Depois que as visitas diminuem.
Depois que a mulher percebe que ainda está cansada.
Depois que o bebê cresce e ela continua sem saber onde se colocou nessa nova configuração.
Quem continua olhando para ela?
O cuidado não pode existir somente quando há um acontecimento.
Ele também precisa existir na continuidade.
Na escuta.
Na rede de apoio.
Na possibilidade de pedir ajuda.
Na presença de quem percebe que alguma coisa mudou.
Na coragem de dizer: “isso está pesado demais para mim.”
E, principalmente, na compreensão de que buscar ajuda não é um fracasso.
Cuidar também é saber encaminhar
Existe um limite importante entre presença, escuta e atuação profissional.
Eu sou doula e escritora. Não sou psicóloga e não pretendo ocupar um lugar que pertence aos profissionais de saúde mental.
Mas acredito profundamente que educação, informação e presença também fazem parte da rede de cuidado.
Uma doula não diagnostica.
Uma amiga não trata.
Um familiar não substitui um profissional.
Mas qualquer uma dessas pessoas pode ajudar a perceber que algo não está bem e incentivar a mulher a procurar a assistência adequada.
E isso pode fazer diferença.
Quando existe sofrimento intenso, pensamentos de morte, pensamentos suicidas ou risco de autolesão, não é hora de enfrentar sozinha ou esperar passar.
É hora de buscar ajuda.

No Brasil, é possível procurar uma Unidade Básica de Saúde, CAPS, UPA, pronto-socorro ou hospital. O depois precisa começar antes.

Tenho pensado que falar sobre saúde mental materna não deveria acontecer somente quando uma mulher já está em sofrimento intenso.
Essa conversa precisa começar durante a gestação.
Quando ainda há tempo para falar sobre expectativas.
Sobre medo.
Sobre rede de apoio.
Sobre mudanças.
Sobre limites.
Sobre a diferença entre o que imaginamos que será a maternidade e aquilo que ela realmente pode ser.
Porque preparar uma mulher para o nascimento também pode significar prepará-la para o que vem depois.

Acredito que esse seja um dos lugares mais importantes da educação perinatal: não ensinar apenas sobre o que acontece com o bebê, mas ajudar a mulher a permanecer em contato consigo mesma enquanto se torna mãe.

O nascimento passa.
O puerpério passa.
A fase mais intensa passa.
Mas a mulher continua.
E o cuidado também precisa continuar.

O depois também precisa de cuidado.

Este texto tem caráter educativo e reflexivo e não substitui avaliação ou acompanhamento de profissionais de saúde.
Fontes principais: Organização Mundial da Saúde (OMS) e Ministério da Saúde.

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